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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

A "brincadeira" da rasteira


A "brincadeira" da rasteira
Rosângela Silva

Viralizou na internet nos últimos dias, vídeos em que dois amigos enganavam e passavam uma rasteira num terceiro colega. Isso acontecia muitas vezes em escolas, em suas próprias casas ou em encontros e festas. Há cenas de filhos fazendo isso também com suas mães. São cenas chocantes e de entristecer.
Atitude de muito mau gosto e que revela pouca empatia, muitos de nós, educadores, nos pusemos a refletir com nossos alunos sobre o fato.
Rapidamente as escolas reagiram e começaram  a trabalhar com a educação emocional dos estudantes. Os pais atentos e que acompanham de perto seus filhos também começaram um trabalho de orientação e conscientização. Assim, em paralelo à brincadeira, também viralizaram muitas ações contrárias, positivas, apelando para o companheirismo, para o cuidado com o outro, para as ações afetivas.
É verdade que há muito egoísmo, maldade, enganação, e literalmente “passadas de rasteira” em nossa vida cotidiana.
Quem não viveu uma passada de rasteira na vida, de amigos, de familiares, de colegas de trabalho, dos nossos governantes?
Tudo isso é preocupante, é grave, mas nem por isso, nós adultos emocionalmente saudáveis, conhecedores e praticantes das leis , saímos por aí dando o troco e exercitando o código de Hamurabi (olho por olho, dente por dente).
É verdade que prolifera na sociedade a lei do mais forte sobre o mais fraco, do mais rico sobre o mais pobre, daquele  que tem mais poder sobre o que não o tem. E é certo que há muita gente reagindo contra isso.
Quem consegue perceber isso nos noticiários e conversas cotidianos?
É verdade que há uma onda para que as minorias não sejam notadas, nem ouvidas. E é verdade que há muita gente trabalhando para reverter isso.
Eduquemos nossas crianças e suas famílias. Como escola,  não podemos fugir desse árduo compromisso.  Assim,  começamos por mudar nosso bairro, nossa comunidade, nossa cidade, convivendo e colhendo os frutos do nosso trabalho nos nossos arredores.
Sim, se todos trabalharem a cultura da paz, forjaremos seres humanos melhores, que estarão consequentemente praticando ações saudáveis no nosso entorno.
Trabalhemos para que assim seja!

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Qual é o seu propósito?


Qual é  o seu propósito?
Rosângela Silva



 Em qualquer área da vida o propósito é aquilo que rege nossas ações. Propósito  é a intenção, o designo, a finalidade, o intuito que se tem antes de começar algo.
Como a especialidade aqui é falar de educação, o  foco da reflexão é olhar para os educadores e  escolas e promover pensamento quanto à coerência entre  seus propósitos  e suas realizações.
Em relação aos professores toda ação começa com pesquisa, estudo, busca, levantamento de dados, seleção de prioridades e planejamento. Não obrigatoriamente nesta ordem citada.
O que vou ensinar? Como vou ensinar? Que ferramentas  ou metodologias vou empregar nesta tarefa? Como  o aluno vai interagir com essa proposta? E como vou avaliar? Tenho elementos suficientes sobre a turma para iniciar tal tarefa? Preciso adaptar algo para algum aluno? Quantas aulas julgo suficientes para desenvolver essa programação? Tenho os materiais de apoio disponíveis para essa aula ou tenho que prepará-los?
A lista acima é pequena diante de tantas questões que envolvem o preparo de uma aula. Muitas aulas são desastrosas ou mal dadas porque o professor chega à sala sem propósitos definidos. E sem uma aula bem estrutura da ou sem saber o que  o professor espera dele, o estudante vai enveredando para outros centros de interesse.
Falando das escolas, o propósito é também importantíssimo para definir seu papel na sociedade e especialmente na comunidade em que atua.
Qual meu propósito? Que clientela atendo? O que buscam nesta unidade escolar? Quais seus valores?  Que pontos foram relevantes para a escolha feita pelo cliente? Como preparo minha equipe para atender essa clientela? Que combinados e limites estabeleço diante do grupo que atendo? Como mantenho o grupo que comprou meus serviços motivado, atuante e fixado  nesta escola? Fazemos qualquer negócio para a retenção do  cliente? Sigo uma linha de coerência entre meus serviços e aquilo que entrego? Como vendo meus serviços? Aceito todos os alunos ou faço seleção de perfil? Quero ser vista como escola tradicional ou contemporânea? Sigo as tendências educacionais por acreditar nelas ou para me equiparar ao concorrente?
De todas as questões levantadas aquela que pode abraçar todas as demais é a que responde sobre o propósito, pois com essa clareza  todo o gerenciamento do cotidiano deve girar na manutenção de coerência entre o que se propõe e como se atua.
Quantas escolas falando de afetividade, sem proximidade com os alunos?
Quantas divulgando aulas práticas, mas executando só as teóricas?
Quantas intitulando-se bilíngues, sem ser de fato?
Quantas valorizando o  protagonismo do aluno, mas centralizando a aprendizagem somente no professor?
Quantas inspirando-se nas  múltiplas inteligências,  mas exigindo do aluno apenas o conhecimento acadêmico?
Quantas falando em construção do conhecimento, sem dar oportunidade do aluno integrar o conhecimento do seu meio?
Quantas dizendo sobre a interação social operando diariamente com carteiras enfileiradas?
Quanta incoerência! Quanta falta de intencionalidade!
E aí, qual é mesmo o seu propósito?


sábado, 30 de julho de 2016

Meninos Em Ação (Em Boa Ação!)

Meninos Em Ação (Em Boa Ação!)

                                                              Rosângela Silva

Texto publicado na Revista- http://www.revistadavila.com.br/

     Dias atrás conversava com uma prima sobre educação dos filhos. Eu comecei dizendo que diminuiríamos muito o machismo e as agressões contra as mulheres se as mães dos meninos cuidassem para que eles crescessem respeitando mais as meninas.
     Ela concordou, mas como mãe de 3 meninos, relatou o quanto percebe a falta de limites e o desrespeito das meninas para consigo mesmas, disse perceber a família deixando as cobranças e orientações de lado.  Continuando, ela descreveu como aconselha seus filhos: “Oriento que devem cuidar e ser gentis com as meninas”, “ Peço que as tirem de ocorrências perigosas ou vexatórias”, “Digo a eles que  têm que ajudar as meninas que  estiverem em situação de risco ou que se põem em atos constrangedores”.
     Minha cunhada também educa um menino de 17 anos. Ela é categórica com as  responsabilidades dele  e sempre repete"Neto meu não ficará largado pelo mundo. Se fizer filho, vai ter que assumir e cuidar".
     É assim mesmo que penso que as famílias dos meninos deveriam agir.
     A verdade é que uma boa parte de nossas crianças ou adolescentes sejam eles, meninos ou meninas, têm sido negligenciados pelas suas famílias. A pressa, o trabalho, o cansaço, as cobranças profissionais e o egocentrismo dos pais fazem com que cuidem menos de suas crias e olhem menos para elas.
     O resultado é uma grande massa de desajustados, querendo levar vantagem, querendo se passar por ícone em ações incorretas ou maldosas, mentindo, driblando, desejando ter sucesso sem usar de esforço e dedicação.
     Falando especificamente dos meninos agora, vamos relembrar que  os hormônios contribuem para o comportamento mais impulsivo e agressivo e, em relação à estrutura cerebral, a amígdala, maior no homem, influencia para que sejam mais explosivos e tenham gosto pelos riscos. Há nos meninos diferenças em relação às meninas nos sentimentos, nos relacionamentos, no pensamento, na resolução dos problemas e nas reações. Isso tudo confirmado pela neurociência, pela psicologia e pela biologia.
     Sendo o corpo masculino uma ferramenta que induz ao movimento, a ação e, até à transgressão, cabe às famílias e às escolas investirem  esforços na formação dos valores e do caráter em busca de um ajuste positivo na educação dos meninos.
     O pai é uma figura importantíssima na formação dos meninos e uma referência no direcionamento das ações assertivas. Na ausência do pai, tios, avós ou padrinhos cumprem bem esse papel. O importante é que recebam bons exemplos dentro da família para terem em quem se basear para moldar a sua personalidade e os seus valores.
     Muitas atitudes podem ser adotadas para educar a sensatez, a sensibilidade e os valores dos meninos, tanto em casa como na escola: reduzir  a exposição à violência, permitir o choro e a demonstração de medo, estimular o cavalheirismo com todos ao seu redor, ensinar a cozinhar e cuidar dos afazeres domésticos, ensinar a respeitar as meninas, jamais puxando ou forçando uma proximidade que elas não desejam, treinar o sentimento da perda,  propor situações para exercitar o  autocontrole, cobrar  atitudes positivas com amigos e vizinhos, valorizar atitudes acertadas no dia a dia e escolhas saudáveis, valorizar a honestidade e expulsar a corrupção cotidiana  do ambiente familiar.
     O estímulo aos esportes, o incentivo ao bom gosto musical, especialmente de ídolos que sejam bons modelos de valores, o compartilhamento de boas ideias e ações no meio em que vivem também contribuem para uma formação melhor.
     A família, a escola e o governo devem  estar atentos aos meninos especialmente no aspecto da permanência na escola. Dados confirmam que as meninas são mais alfabetizadas e permanecem mais na escola do que os meninos. Eles enfrentam o trabalho mais cedo e buscam ajudar no sustento familiar, principalmente nas classes menos favorecidas.
     Uma comunidade melhor depende de pessoas mais conscientes e melhores em suas ações. A cidadania começa em casa e estamos todos muito carentes de heróis e de bons exemplos. Eduquemos nossos meninos!! Eles não precisam ser heróis, mas podem ser gente boa!!!

sexta-feira, 24 de junho de 2016

SER FAMÍLIA DO ESTUDANTE

                                            SER FAMÍLIA DO ESTUDANTE
                              Rosângela silva ( artigo publicado na Revista  www.revistadavila.com.br)

Família e escola devem ter uma parceria forte e sólida em benefício do sucesso pessoal  e escolar do estudante. Sendo escola particular, a visita da família para tomar conhecimento da proposta pedagógica, equipe docente,  segurança, dependências físicas, material didático  é crucial para que a escolha aconteça com clareza e haja um casamento entre as aspirações da família e da escola.
     Na escola pública, embora muitas vezes as famílias não possam escolher a instituição, nada impede o agendamento de uma entrevista com o diretor ou coordenador para um conhecimento mais aprofundado do trabalho ali realizado.
     Cabe à família educar suas crianças e transmitir a elas valores positivos, fundamentais à convivência social. Os modelos recebidos pelas crianças dentro das famílias são determinantes para sua vida pessoal e social.
     Para começar é preciso que dentro da família se estabeleça regras e limites sempre. Pode parecer contraditório, mas a verdade é que as crianças e adolescentes clamam por isso. As regras dão segurança e determinam modos  de agir  e responder às questões impostas pelo cotidiano.
     Outra forma da família atestar seu interesse na vida estudantil do aluno é providenciando materiais solicitados com presteza e pontualidade, dando condições para que o trabalho se efetive com mais agilidade na sala de aula.
     É muito bom também que a família oriente os filhos a seguirem o regulamento da escola, evitando estimular regras especiais para eles e procurem evitar faltas desnecessárias em dias letivos.
     Participar da vida escolar, frequentar as reuniões e eventos, cobrar a realização dos deveres e estudos diários também fortalecem a parceria e mostram ao estudante o desejo, dentro de casa, do seu sucesso escolar.
     Cabe às famílias apoiar o trabalho das escolas, uma vez que conheceram a linha de trabalho da instituição, questionaram o modo dela atuar diante das ocorrências disciplinares, discutiram sua visão filosófica e formas de comunicação, precisam confiar que as ações dos profissionais estarão coerentes com sua proposta educacional.
     Dar credibilidade ao trabalho feito pela escola valida sua escolha e mostra ao estudante que a família apoia e está do lado da instituição. Lembrando aqui,  que num conflito, sempre é muito bom ouvir os dois ou mais lados em questão, com o intuito de entender a ocorrência de forma completa. Tanto para a escola, como para o estudante, isso mostra o interesse e acompanhamento da família na vida do aluno. Caso seja necessário é muito válido que a família solicite uma retratação por parte do estudante.
     Certamente uma boa escola, procurará agir com responsabilidade e seriedade nas ocorrências diversas que se listam diariamente em suas dependências, mas todas são passíveis de erro. Quando a escola errar, deve ser questionada e levada a pensar suas ações.
     Cabe também às famílias agir com confiança e generosidade nas críticas. Uma vez que haja um equívoco por parte da escola, de nada adiantará falar mal dos profissionais na frente do filho envolvido, alarmar outros pais no portão ou ainda  postar a ocorrência nas redes sociais. A ação assertiva é procurar a direção ou coordenação para conversar e juntos encontrarem o melhor caminho para solucionar a questão.
     Aprender com os erros é muito bom para todos os envolvidos, tirando uma lição positiva dos episódios ruins se aprende grandes ensinamentos. Saber que o erro é a porta para a aprendizagem ensina a todos, pais, alunos e escola a superar dificuldades, rever ações, retomar e consertar atitudes equivocadas, possibilitando o exercício da humildade e da sabedoria.

terça-feira, 19 de abril de 2016

SER PROFESSOR

O segundo texto “Ser professor” elenca o papel desse profissional nos tempos atuais. O terceiro texto “Ser aluno” coloca em pauta a necessidade de conhecer o perfil do aluno e suas necessidades. Por fim, o último texto “Ser família do estudante” discute a participação das famílias impulsionando o sucesso escolar das crianças e jovens.

                                                                              SER PROFESSOR

                             Rosângela silva ( artigo publicado na Revista  www.revistadavila.com.br)
Hoje no nosso segundo texto “Ser professor” o texto elenca o papel desse profissional nos tempos atuais. Peça norteadora do processo ensino-aprendizagem, o professor é o grande responsável pelo desenvolvimento e encaminhamento da sua turma. É ele quem planeja, entusiasma, articula ideias, escolhe metodologias, integra saberes e linguagens e tem o mapa de onde quer chegar.
Coragem, ousadia, criatividade e capacidade de inovação são quesitos importantíssimos para professores que querem fazer a diferença na vida de seus alunos, especialmente nos dias atuais em que os alunos esperam que tudo seja rápido, eficiente e funcional.
Como o conhecimento renova-se a cada dia e pode chegar até a se contradizer, tamanha rapidez das pesquisas, teorias e mudanças, o  professor precisa ser um aprendiz contínuo e um grande curioso. Aquele que na  área da educação (ou qualquer área) acredita já saber tudo ou já estar completamente pronto, pouco poderá ensinar aos  seus alunos, especialmente sobre humildade e capacidade de recriar-se .
Professor é mediador de aprendizagem, mas para que isso aconteça precisa conhecer seus alunos, saber um pouco dos seus gostos e preferências, seus interesses e sonhos.
Integrar conhecimentos é outra tarefa que cabe ao professor, juntando  os conteúdos, aproximando saberes, misturando assuntos que aparentemente são desconectados.
Ser ou não um bom professor depende da capacidade de entrega de cada profissional ao seu ofício. Há aqueles que ao adentrarem à sala de aula, entregam-se com tanto amor, dedicação e profissionalismo que não deixam para trás nenhum dos seus aprendizes. Caminham junto com eles e vão extraindo de cada um, aqueles saberes escondidos, rejeitados, desconsiderados e assim, vão impulsionando o conhecimento a brotar. Criam condições para seus alunos caminharem, removendo obstáculos, pegando atalhos, tirando pedras do caminho. São professores que abrem-se para o outro, dando significado às pessoas, à escola e à aprendizagem.
Estes não são apenas “dadores” de aula, são de fato educadores. Dar aulas é bem mais fácil do que ser professor. Dar aulas implica em planejar, organizar as estratégias e passar seu conhecimento. Ser professor é mergulhar nas profundezas do mar incerto e desafiador, que é a sala de aula, e ir se aprofundando, explorando, conhecendo de verdade aqueles que ali estão.
Numa sala de aula, repleta de pessoas diferentes, com valores, crenças, vontades, ritmos, ideias e sonhos pessoais confrontando-se e até chocando-se constantemente, cabe ao professor acolher essas diferenças. Ao mesmo tempo precisa integrar e misturar todas essas informações para extrair dessa mistura conhecimentos e aprendizagens para serem compartilhados entre  todos.
Ser professor é se deixar envolver por cada aluno, é indignar-se quando ele não corresponde, não quer avançar, rejeita “a comida” que se está oferecendo. É continuar insistindo, buscando e acreditando que haverá outro jeito, outra forma dele aceitar seu alimento, seu conhecimento.
Professor, ser responsável pela transformação social que todos sonhamos e que sabemos começar em casa e se solidificar nos bancos escolares.
Professor, ser admirável, que dá referências, que projeta, que desvenda mistérios, que provoca insights, que deve cercar-se de pensamento reflexivo e crítico sendo modelo  e fonte de inspiração ao seu aluno. E aqui, ouso plagiar a ideia de Rubem Alves de que o aluno quando admira seu mestre, faz seu coração dar ordens à inteligência para aprender as coisas que o mestre sabe. Saber o que o mestre  sabe, passa a ser uma forma de estar com ele. Aprende porque ama. Aprende porque admira.
Um bom professor é aquele que junta três saberes importantíssimos que o capacita para estar à frente da sala de aula. O primeiro  saber é domínio de seu conteúdo, sem esse conhecimento nenhum professor inspira, convence, causa espanto ou encantamento. Outro saber necessário  está ligado às práticas usadas em sala de aula. O uso de  eficientes e interessantes recursos metodológicos atrai, motiva  e aproxima o aluno da aprendizagem.  O terceiro saber trata da habilidade de relacionar-se. Tendo bom autoconhecimento e empatia o professor saberá lidar com os conflitos dando bom encaminhamento a eles, não se deixando atingir emocionalmente por situações que podem sabotar a sua aula. Esse quesito contribui para que o professor coloque-se no lugar do aluno, entenda suas motivações e possa atuar com inteligência e condição emocional positiva na resolução dos problemas.
 O reflexo  das mudanças da sociedade dos últimos tempos associado ao descaso dos governantes com a educação em nosso país tem como resultado o fato de que cada  vez mais chegam à sala de aula, professores mal formados, sem domínio do conteúdo que lecionam, escrevendo mal, inseguros quanto ao formato de sua aula, às vezes autoritários demais e em outras vezes frouxos com a disciplina. Também chegam duvidosos quanto aos recursos pedagógicos, às metodologias e às estratégias, sem saber por vezes, como e por onde começar. E tão grave quanto às dificuldades anteriores, chegam sem conhecerem a si mesmos, nem sua clientela e suas fases de desenvolvimento e motivações.
Todas essas defasagens vão dificultar o entrosamento e levam a uma ruptura grave de comunicação, que torna ineficiente a aprendizagem.
Somando-se a tudo isso, esses professores entram em contato nas salas de aula com a chamada “geração multitarefa” que se apresenta robotizada pela tecnologia, inquieta e com dificuldade de permanecer atenta, que muda rapidamente seu ponto de concentração, que não sabe esperar e deseja que tudo seja rápido, eficiente e prazeroso, que quer resultados, com pouco esforço, que tem pouca paciência e capacidade de contemplação. E mais, falta-lhe limite e educação vindos de casa.
Tem-se então um quadro caótico em que o professor acaba não dando conta de executar bem o seu trabalho,  sente-se sobrecarregado com tantas atribuições que lhe são dadas,  o que traz desmotivação, frustração e desânimo a uma boa parcela desses professores. Poucos encontram força na sua motivação pessoal para fazer a diferença.
SER PROFESSOR, ou melhor SER BOM PROFESSOR diante de tantas adversidades é o grande desafio. Conseguem ser bem sucedidos no ofício aqueles que de fato têm amor pela profissão e conseguem encontrar realização com os pequenos feitos diários.
Esses professores se alimentam da energia poderosa que vem das crianças e adolescentes, assim como da sua alegria, da sua vivacidade, da sua brincadeira despretensiosa, da criatividade que aflora de suas invenções, do riso e da gargalhada que contaminam e fazem dar graça àquilo tudo que o mundo adulto racionaliza.
Para terminar uma fala do grande professor, Paulo Freire, que com seu texto simples, quase nos dá a receita pronta de como  exercer a profissão: “É assim que venho tentando ser professor, assumindo minhas convicções, disponível ao saber, sensível à boniteza da prática educativa, instigado por seus desafios que não lhe permitem burocratizar-se, assumindo  minhas limitações, acompanhadas sempre do esforço de superá-las, limitações que não procuro esconder em nome mesmo do respeito que me tenho e aos educandos”.

sexta-feira, 18 de março de 2016

SER ESCOLA


O texto "SER ESCOLA" é o primeiro de uma  série de quatro textos que julgo sustentarem a rede de relações dentro do espaço escolar garantindo o entendimento das funções e atribuições de todos os envolvidos no processo ensino-aprendizagem. O primeiro texto “Ser escola” apresenta uma reflexão sobre as mudanças necessárias às escolas e a importância da coerência com sua proposta pedagógica. O segundo texto “Ser professor” elenca o papel desse profissional nos tempos atuais. O terceiro texto “Ser aluno” coloca em pauta a necessidade de conhecer o perfil do aluno e suas necessidades. Por fim, o último texto “Ser família do estudante” discute a participação das famílias impulsionando o sucesso escolar das crianças e jovens.

                                                                                   SER ESCOLA 

Rosângela silva ( artigo publicado na Revista  www.revistadavila.com.br)


Discutir qual é o verdadeiro papel da escola nessa sociedade em constante transformação e os meios para que ela promova o crescimento dos indivíduos de forma sensibilizadora e provocadora de mudanças que agreguem valores às relações através dos conhecimentos obtidos em seu espaço é um assunto relevante atualmente na área da educação.
Esse é um tema que envolve os educadores compromissados, preocupados em promover uma escola significativa na vida dos estudantes.
A sociedade muda constantemente e a escola que está inserida em seu meio também precisa mudar, pois tem papel essencial na construção de indivíduos críticos, atuantes e produtores de cultura.
No dia a dia, se faz necessário articular os tempos e espaços, explorando materiais diversos, trazendo as vivências para a sala de aula e os demais espaços, criando projetos que promovam situações de aprendizagem e que façam o aluno pensar e construir seu conhecimento na interação com seus pares.
Equalizar ritmos e condições de aprendizagem num espaço que agrega diferentes alunos é um outro grande desafio atualmente para as escolas. Ser uma boa escola é conseguir  lidar com o aluno que grita por aprendizagem com aquele que precisa de estímulos e impulsos o tempo todo.
As novas configurações sugerem novos modelos pedagógicos. É necessário que se construa uma escola com currículo moderno, com propostas que atendam às novas demandas, com um novo conceito de seu papel e função.
Longe de ser a única detentora do saber nos dias atuais, a escola precisa reformar sua crença de única fonte de conhecimento e buscar novas formas de preencher seu espaço modificando as relações entre os indivíduos e a aprendizagem.
De forma prática como ser uma escola com excelência em tempos modernos?
Comecemos pela elaboração da Proposta Pedagógica. Uma boa escola tem clara e definida a sua linha de trabalho, a sua identidade. A partir daí deve aproximar suas intenções e ações, estando sempre pautada no modelo pedagógico criado.
Agir em conformidade com sua proposta pedagógica é o que dá credibilidade a uma instituição de ensino. Uma bela proposta desarticulada das ações cotidianas é apenas um engodo, um disfarce, uma lista de palavras sem sentido real para o processo pedagógico.
A partir daí é preciso pensar em muitas questões…
Como está formatado o sistema de avaliação? Há coerência com o fazer pedagógico diário? Como se faz a recuperação? Como a recuperação é vista por todos os elementos envolvidos? Ela de fato pretende recuperar deficiências ou é apenas cumprimento de protocolo? Ela é realmente pensada e organizada para os alunos e suas dificuldades?
Como são organizados os projetos e eventos? Eles são temáticos? A estrutura deles é condizente com os ideais da instituição? Vai homenagear as mães? Qual ênfase vai ser dada? O formato escolhido está coerente com os princípios da escola e com a  motivação inicial da homenagem? Qual é o intuito da Festa Junina? E da formatura? E da festa de encerramento do ano letivo?
A relação com os pais é aberta? Eles são considerados dentro do processo? Há espaço para atendê-los? Sua opinião é considerada e estudada sem que haja ingerência? Vai fazer uma reunião com pais? Qual enfoque será dado? Qual abordagem inserir nessa conversa?
A metodologia e as ações didáticas estão alinhadas com a proposta da escola ou cada envolvido age em conformidade com suas ideias próprias, desconsiderando a engrenagem pedagógica da escola?
Como a escola vê as infrações cometidas pelos alunos e quais as sanções disciplinares previstas? As ações da escola acompanham os seus princípios de formação integral do estudante? As questões disciplinares são tratadas ou costumam passar sem a atenção dos profissionais? Há preocupação com o tratamento dos casos, visando a formação ética, emocional  e social das crianças  e adolescentes?
Como se faz o acompanhamento da produção escolar? Os materiais produzidos pelos alunos passam por avaliação? Há controle através de amostragens? A prática de assistir aulas é um recurso usado pela direção ou coordenação visando conhecer o “fazer pedagógico” da sala de aula e as ações da equipe? Há feedback frequente aos profissionais a partir das ocorrências cotidianas, visando aperfeiçoamento da equipe e fidelização à Proposta Pedagógica?
Há valorização da produção escolar dos alunos? Como se faz essa cobrança? Que incentivos são dados? Há preocupação em corrigir os materiais? Como isso é feito?
Como o erro é considerado? É visto como referência para o acerto? Uma boa escola costuma avaliar constantemente os erros e acertos promovendo reflexões, aprendendo, estudando os erros e comparando resultados.
Os planos de aula são elaborados e passam pelo acompanhamento da equipe gestora?  Essa avaliação é vista como um caminho de ampliação do autoconhecimento pessoal e profissional dos envolvidos no processo?
Perguntas… Muitas perguntas… Onde andarão as respostas?
Ser uma boa escola é dar encaminhamento aos problemas, acolher críticas e aprender com elas.
Ser uma boa escola é aprimorar metodologias de trabalho dando condições para que o aluno reflita sobre o seu conhecimento e faça-o ter sentido e se encaixar em sua vida.
Ser uma boa escola é atuar para um melhor aproveitamento dos alunos agregando conhecimento e cultura ao cotidiano escolar.
Não há fórmulas mágicas para uma escola estar no caminho da excelência. O certo é que sem trabalho atento, acolhedor, reflexivo, insistente e inovador de todos os envolvidos no processo  educacional não haverá colheita produtiva e nem safra generosa.