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domingo, 7 de maio de 2017

A crise é moral

Todos os problemas que vivemos hoje têm sede na crise moral estabelecida em nossa sociedade.
  A sociedade é hedonista. Todos querem o prazer a qualquer custo. As pessoas pleiteiam seus diretos e negligenciam seus deveres. Crise moral.
  As famílias esqueceram seus valores, se dividiram, se desorganizaram, perderam o respeito uns pelos outros. Pais brigam devido à guarda “descompartilhada”. Pais trocam a convivência com os filhos por programadas divertidos, festas e comemorações. Filhos não reconhecem a autoridade dos pais. Crise moral.
  Na política vemos corrupção, mentira, trapaças, conluios. Entre Tiriricas e engravatados de fala bem articulada não sabemos em quem  confiar. Vergonha nacional . Crise moral.
  Os governantes desviam verbas, enchem malas e cuecas de dinheiro, fazem pactos em  benefício próprio, deixando de priorizar o atendimento básico aos menos favorecidos. Crise moral.
  Na polícia há falta de segurança, venda de privilégios, falta de ética. Crise moral.
  O crime organizado rouba os filhos dos pais e os transformam em soldados do tráfico. Jovens se vendem em troco de drogas e se afundam num caminho sem volta. Crise moral.
   A mídia forma valores distorcidos, vende falsas verdades, incita a violência e a vantagem dos mais fortes sobre os mais fracos. Crise moral.
 As propagandas mostram flashes da vida real, sempre colocando seus produtos acima de tudoNelas tudo é permitido: pode  enganar, pode mentir para os pais, pode desmerecer o outro,vale tudo para se dar bem. Crise moral.
  Nas novelas  basta uma cena para distorcer todo um conceito educativo trabalhado longamente  pelos pais. Crise moral.
  Nos clubes esportivos jogos são vendidos, juízes se corrompem, jogadores demitem  técnicos e patrocinadores ditam ordens. Crise moral.
 Nas escolas professores amedrontados fingem que não vêem as transgressões. Diretores acuados se rendem à chantagem de pais que acreditam estar defendendo seus filhos, quando na verdade estão reforçando seus erros e plantando a ideia de que podem tudo. A escola parece sozinha e com muitas atitudes e ações aprendidas pelas crianças e jovens para reverter. E solitária acaba se rendendo à força das famílias e do meio que dominam e vencem a parada. Crise moral.
 Mas haveremos de acreditar em dias melhores e que nem tudo está perdido.
 Haveremos de acreditar que há jeito para esse desarranjo todo.
 Haveremos de ser mais fortes que essa crise. Comecemos por melhorar os nossos arredores: nossa casa, nosso ambiente de trabalho, nossos filhos e amigos


Texto publicado na Revista D'àvila  
http://www.revistadavila.com.br/2017/04/crise-e-moral-rota-educacional/

domingo, 29 de março de 2015

“ Cadê aquela rodinha vermelha no rosto?”

                       

  Pensando nas relações entre as pessoas me deu vontade de escrever sobre as emoções que as permeiam.
     É fácil falar com as pessoas pelas telas dos celulares e computadores. Se por um lado parece que as pessoas estão escancarando mais seus sentimentos e desejos, usando os canais das redes sociais para desabafar e explicitar seus pensamentos, libertando-se de pudores e amarras, usando da liberdade de poder se expor, por outro lado, cada vez mais as pessoas podem esconder seus verdadeiros sentimentos, pois a tela não capta todas as reações emocionais e corporais que o “cara a cara” permite.
      Mentiras, enganações, xingamentos, ironias, insinuações, desrespeito são cada vez mais comuns nas relações virtuais e reais. Parece que todos estão ansiosos, impacientes, acelerados, cansados, sem tempo e vontade de dar explicações.
     Empenhados em ter seus desejos e vontades satisfeitos, as pessoas dedicam-se a ser felizes a qualquer custo: passando os outros para trás,  se colocando na frente para ter o destaque em detrimento do esforço alheio, trapaceando em projetos, plagiando ideias, terceirizando os filhos, estacionando em lugares preferenciais, mostrando esperteza em ações desrespeitosas no trânsito, tirando vantagens, praticando pequenas, médias e grandes formas de corrupção, que acreditam ser aceitáveis, e assim vai.
     Lidando com pessoas, vejo que a grande maioria, não se constrange mais com os erros, nem com os atrasos, pouco se importam com cobranças, ignoram procedimentos combinados, fazem acordos que são esquecidos, não concluem tarefas e afazeres da sua lista de serviços, demonstram não entender as cobranças, fingem-se de esquecidas, inventam desculpas infantis para serviços não realizados, enfim, culpam o tempo, as circunstâncias, os outros, por não darem conta de suas atribuições profissionais ou pessoais.
     Ficar embaraçado diante de cobranças e exigências é uma característica que tem se tornado rara entre os cidadãos.
     Enrubescer diante de erros e enganos é um ato que não temos visto com frequência.
     Corar e mostrar o rosto vermelho são atitudes pouco notadas, já que muitos se sentem necessitados de exigir seus direitos antes de cumprir seus deveres.
     Ficar sem graça e desconcertado parece ser coisa do passado, não cabe no tempo presente.
     Ficar com o rosto vermelho é um sinal que o corpo está reagindo à alguma situação difícil ou constrangedora com uma descarga de adrenalina, que acelera o ritmo cardíaco e respiratório, mandando mais sangue para o cérebro e os vasinhos por onde o sangue passa aumentam de tamanho provocando a vermelhidão. Explicação da ciência para a expressão popularmente chamada “vergonha na cara”.
     O lado bom dessa discussão é saber que pesquisadores da Califórnia, através de seus estudos, atestaram que  pessoas assim são mais generosas, cooperativas e confiáveis.
     Isso me fez pensar na educação que tive, nas orientações severas dos meus pais, na cobrança por ser correta sempre. Hoje adulta, ainda enrubesço, fico sem graça,  quando sou cobrada por algo não feito e que era da minha alçada, por esquecimentos que eram de minha responsabilidade, por omissões, deslizes ou  quando duvidam da minha palavra.
     Mesmo sabendo que esse tipo de constrangimento é considerado uma virtude por muitos, às vezes me sinto uma “estranha no ninho”. Parece que ser certa, agir corretamente, enfrentar as dificuldades com altivez e ser honesta são valores atribuídos a pessoas bobas, ingênuas e simplórias.
     Ainda hoje, muitas vezes, ouço o eco das palavras do meu pai a perguntar:“ __Cadê aquela rodinha vermelha no rosto?”
    Então, também pergunto: __Cadê?

                                                                                    Rosângela Silva